segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Teaser

Há já alguns anos que se realiza um evento de bicicletas no coração dos alpes, na região fronteiriça entre a França e a Suiça. Podíamos, por causa dos dorsais, ser levados a crer que se trata de uma corrida, mas numa corrida não há pessoal a meio a parar para ir beber uma cervejola e comer uns petiscos. Podia-se chamar de “festa alpina de mountain bikers”, mas com 80kms para fazer em 10h, ou passas a noite na montanha, não estou a ver motivos para grandes festas. Podia ser chamado de passeio, mas num passeio não costumas ver o Nico Vouilloz e a Anne Caroline Chausson a subir ao pódio no fim do dia. Podia-se chamar de “feira de mountain bikes”, mas os stands que estão montados ao longo da prova têm, em vez de bikes e componentes, todo o tipo de iguarias regionais... baguettes com queijos franceses e presunto, raclettes, salsichas alpinas, chocolate suiço, fondues e muita cerveja. Portanto, à falta de melhor definição, vamos chamar isto pelo nome: Pass’portes du Soleil.

 can i have a beer please?

O Pass’portes du Soleil é um evento realizado na maior rede de trilhos para bicicletas de montanha da Europa (650kms!!), uma zona situada entre a Suíça e a França chamada Portes du Soleil, que inclui alguns bike parks mais emblemáticos da europa: Les Gets e Morzine na França e Champéry e Morgins na Suiça . O traçado da prova, percorre num só dia 80kms no meio dos Alpes, atravessando por diversas vezes a fronteira. Para aqueles que neste momento estão a pensar que eu não sou gajo para estar tão entusiasmado com uma epopeia de 80kms em terreno fortemente acidentado, vou dar o detalhe mais importante, que já se adivinhava pelos nomes que eu disse que subiram ao pódio: trata-se de um evento de "gravity", e estes 80kms são feitos com a ajuda de 14(!) teleféricos e têm cerca de 6500m de desnível negativo acumulado!! Sim, leram bem bros!! Seis mil e quinhentos metros a descer. 

 this view takes all my words for another smart ass comment

Mas não se enganem, não é nenhum passeio. Há ciclistas de estrada profissionais que confessam que ao início subvalorizaram o esforço envolvido e depois sentiram dificuldades em terminar a prova. Mas isso são ciclistas de estrada. Nós, que temos alguma experiência em MTBs no geral e descidas em particular, sabemos bem que 80kms a descer, com 6500m para "gastar" não é uma coisa que se adivinhe fácil. Para além disso, ao passar o dia entre os 1000 e os 3000m de altitude, em esforço, é inevitável que o ar rarefeito da montanha acrescente alguma dificuldade à coisa. Há opções de 30kms e 45kms, mas o verdadeiro Pass’portes é de 80kms.


it's not for the faint of heart


E é por isso que este teaser chega quase um ano antes de se realizar o dito evento (27, 28 e 29 Junho do próximo ano). Para além da logística que está implicada numa deslocação a Les Gets, este é o tipo de coisa que exige alguma preparação física e portanto, se se quiser disfrutar realmente do ride, há que começar a encher e acumular kms.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Seven is the new six



Cuidado rapazes, porque ultimamente, acerto nas previsões todas. E a de hoje, é mais uma "fracturante".
O enduro já está aí com força competitiva e a agitar a indústria das bicicletas. E assim vai continuar, porque a indústria decidiu que os enduristas são os seus test dummies preferidos para a panóplia de coisas novas que vai inventando… seja o tamanho das rodas, seja isto ou aquilo "ajustável", capacetes com abordagens completamente diferentes das tradicionais, sejam formatos de competição esquisitos inspirados no rallys, sejam selins que sobem e descem… seja lá o que for, parece que tudo assenta aos enduristas. E como os enduristas têm um andamento multifacetado e são os únicos que conseguem testar todas as condições possíveis numa voltinha de 10kms, são as vitimas preferidas do departamento de engenharia das marcas.

e se em vez de termo-nucleares tivesse feito bikes?

E os engenheiros têm vindo a introduzir mais um conceito que vai abanar tudo outra vez, as bikes de super enduro. E o super enduro, para além de ser um novo enduro, é também o novo freeride. Porque na verdade, o freeride já tinha deixado de o ser, primeiro com o Big Mountain (ou extreme freeride como alguns chamavam) e depois com a introdução do slopestyle, que não é mais do que  reflexo competitivo daquilo que há uns anos atrás chamávamos de “freeride north shore”, outra sub-modalidade do freeride.

 longe vão os tempos dos "low speed skills"

Com tanto nome e etiqueta não é fácil, mas se passarmos este problema para números talvez o consigamos entender. Até há pouco tempo a fasquia das 6 polegadas de curso traseiro era uma característica que abundava entre as bikes de All Mountain. Só que o All Mountain era um vazio competitivo, e mais que uma modalidade, era um conceito. E o conceito era ir a todo o lado com a mesma bike. Mas entretanto surgiu a vertente competitiva, o formato que chamamos de enduro, um formato de prova que não lembraria a nenhum ciclista, absolutamente inspirado nos rallys, e esse privilegia exclusivamente as descidas. Ora os atletas cedo perceberam que mais valia suar um bocado mais nos corta-fogos que dão acesso ao gate da especial seguinte e depois dispor de uma verdadeira máquina de descida, do que ter uma bike que sobe bem quando ninguém está a contar o tempo e que depois se borra toda nas trialeiras da especiais. E começamos a ver os 150mm a subirem para 160, 165, por aí fora até às 7 polegadas, que eram o "número" das bikes de freeride. E de repente, os engenheiros olham para o catálogo de 2013, reparam que têm duas bikes com o mesmo curso, com o mesmo ângulo de direcção, e cuja única diferença é o peso e a "blindagem". E os engenheiros percebem rapidamente que aquilo, assim,  vai dar merda. Vão de mansinho falar com o departamento comercial lá da fábrica, que fica furioso, chama-lhes atrasados mentais e pergunta o que é que agora vai fazer com duas bikes iguais. Os engenheiros, que são gajos cheios de soluções para problemas que eles próprios arranjam, sugerem que se deite fora o "panzer" de freeride, porque já ninguém se lembra do Richie Schley a fazer skinnys de 1km, nem do Bender a matar-se  encosta abaixo e porque no evento máximo do freeride mundial, o Red Bull Rampage, ninguém usa bikes de freeride. E a alguns marketeers faz-se luz, veem a oportunidade de recomeçar a vender o segmento dos 180mm que estava em declínio há uns anos, e começamos a ver por aí muitos catálogos em que já não há bikes de freeride, o que há é bikes  de super-enduro, gravity bikes, allrounders, "park bikes" e chavões do género, que no fundo apontam todos para os mesmos bichos de 180mm e 13kg capazes de tudo e mais alguma coisa.

  
Vamos lá espremer mais 10 milimetros disto...

Mas e a nós, onde é que isto nos deixa? Bem, a prazo vai deixar-nos sem bikes "só" de freeride, mas mete-nos nas mãos, máquinas altamente pedaláveis, que podes levar a qualquer bike park sem a preocupação de levar um saco onde colocar as peças que ficam pelo caminho. Adicionalmente, coloca o enduro definitivamente, como uma disciplina de gravidade, e fica claro que o que conta, é a descer. E pelo meio, ainda cria a dúvida ao pessoal do downhill, que perante um traçado sinuoso e de dificuldade técnica um pouco mais baixa, vai começar a olhar para a bike de super-enduro que por acaso também está na carrinha, e se vai por a pensar se não será que aquela bike, mais leve, com mais resposta e mais ágil, não será uma melhor opção para aquela pista. E isto pode abrir o precedente de considerar o enduro uma espécie de “downhill com bikes de coroa simples” ou “downhill sem transportes", o que é muito redutor e demasiadamente longe do conceito do All-Mountain que esteve na origem do enduro enquanto vertente competitiva. E como os engenheiros continuam cheios de ideias, começamos a ouvir uns sussuros a perguntar… "será que o oito vai ser o novo seis?"


You never know what they'll come up with...



domingo, 30 de junho de 2013

Downhill is dead, climb for yourself


Já aqui tinha sido previsto que os canhões de DH iam entrar em declinio nos próximos tempos. Se Darwin olhasse para o mundo das bicicletas ia ver aqui algumas semelhanças com as teorias evolucionistas. O DH começou por ser um predador "generalista" e os trilhos que devorava eram igualmente generalistas. Nos anos 90 o DH era um conceito democrata, era para todos, para todos os tipos de massas corporais, era em quaisquer caminhos a descer, era nas mesmas bikes com que se ia provas de XC, talvez se tivesse escolhido logo uma máquina de sloping acentuado e para as provas de DH se lhe metesse um guiador elevado, mas as bikes eram as mesmas, as tais "generalistas".

Ainda se lembram do Turcifal?


Mas tudo evolui. E as tais generalistas, em 20 anos de evolução do downhill, tornaram-se em "chitas" altamente especializadas. Os trilhos evoluiram com elas para pistas de dificuldade inimaginável, continuando com a analogia, para "gazelas de grant", cujo único predador são precisamente as tais máquinas de DH especializadas. Mas isto incorre no problema da especialização: por um lado, nem ninguém com outro tipo de montada que não seja um "big rig"se aventuraria em pistas de classe mundial, nem por outro, ninguém se atreve a levar as "chitas de DH" a caçar outra coisa se não pistas de alto nivel de dificuldade. Nem foram desenhadas para outra coisa senão para isso. E tal como Darwin já tinha previsto, as espécies especialistas têm uma longevidade curta, e ficam reservadas a nichos onde determinadas condições naturais extraordinárias ocorram.

A antiga alternativa


O que me leva a escrever este post foi a visita que fiz durante as férias à Serra do Socorro, ao local em que apenas há 5 anos havia provas de uma bem viva taça de Portugal de DH e uma pista cuidada e limpa. Mas nessa visita, mal cheguei ao campo de futebol que acolhia o paddock dessa prova, percebi que algo  estava mal. O excesso de vegetação na rampa de acesso deixava adivinhar algo menos bom, mas foi quando vi o drop final e a vertical que lhe é alternativa, que  percebi que aquela, era mais uma "gazela de grant" que havia sucumbido ao declinio do DH.

No landing

As pistas de DH sempre precisaram de alguém que as construisse e cuidasse delas. Precisam de mimo  e de muito trabalho, de muitas horas de enxada. Seria de esperar que apenas florescessem junto a meios mecânicos ou grandes inclinações. Quer dizer, se vives em whistler hás de ter uma bike de DH e provavelmente és um traibuilder activo, ou então não vives em whistler mas tens um grupo de amigos que são teimosos e continuam a escavar furiosamente o monte lá ao pé de casa, mas mesmo estes, são cada vez menos. Depois do hype da modalidade na década de 2000, que foi tal que havia pistas em todo o lado, havia provas em todo o lado e toda a junta de freguesia organizava um DHU, vem a retracção da modalidade, que despojada de uma característica genética fundamental do MTB, a autonomia, vai continuar a sua especialização e afastamento da modalidade mãe, e muitas gazelas de grant, como a da serra do socorro, vão morrer.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

The vet

Se no passado já tinha dado provas do meu sentido de orientação e já me auto apelidava de “pombo correio”, agora que aliei um GPS a estas qualidades transformei-me num verdadeiro “drone”. E apesar de não andar a disparar misseis contra os talibãs, este Sábado assumi uma missão na zona de Sintra – descobrir o famigerado trilho das pontes. Carreguei um track GPS que passava por lá e que começava na mula e pus-me a caminho.  A serra ainda apresenta fortes indícios da “guerra” que lá houve no fim de semana do “alerta vermelho” por causa do vento e há montes de árvores ainda no chão. Uma constante neste sábado era o barulho de motosserras que ecoava um pouco por todo o lado. Depois de vários quilómetros a subir e depois da transposição, por vezes fácil, outras vezes muito difícil, de árvores que tinham caído, cheguei à curva onde começa o trilho para Colares. Mas, a apenas uns 10 metros desse local fiquei sem tracção, pois o cubo traseiro deixou de “agarrar” a cassete quando se pedala. 
 
 
 
A Pitch já andava a acusar desgaste no cubo traseiro há uns tempos. Já o tinha sentido, já tinha sido alertado pelo mecânico, mas como sempre, nas bikes, há que explorar o material até ao ultimo momento. O material é caro, é consumível, por isso há que usá-lo até ao seu ultimo sopro de vida. Foi uma pena ter rebentado precisamente ali, o que me impediu de ir finalmente visitar o trilho das pontes. Estava a uns quilómetros valentes do carro, mas tinha toneladas de energia potencial para gastar, pois estava mesmo num dos pontos mais altos da serra. O regresso ia ser uma tentativa de optimizar, em descida, o esforço das pedaladas que me levaram até ali. Pois bem, nessa curva, para a esquerda tinha o trilho de colares, mas que não me servia para chegar ao meu destino. À direita tinha o kamikas e não me servia para chegar vivo ao meu destino. Mas uns metros mais à frente vi uns putos, a entrarem num single track, e apressei-me a chegar ao pé deles. A minha primeira pergunta reflectia bem a minha preocupação: “isso por aí é sempre a descer?” e “dá para chegar à barragem da mula?”. Como obtive um sim a ambas as questões, apressei-me a explicar a minha situação de estar sem corrente e que por isso, me ia juntar ao grupo. Mas o momento que deu origem ao titulo do post estava por vir. Talvez por estar vestido de lycra, talvez por ter provavelmente o dobro da idade média deste grupo de putos, talvez pelo excesso de peso ou talvez pelo ar desanimado de quem já viu a sua voltinha estragada e se prepara para ir por a bike ao estaleiro, um deles diz “mas olhe que isto é complicado, o melhor é o senhor vir atrás de mim”. Gostei do “senhor”. Eles não sabiam, mas estavam com um veterano, provavelmente com mais horas de bike do que eles todos juntos. Mas nestas coisas, é sempre melhor poupar palavras e explicar com acções.
 
 
 
Começámos a descida e poucos metros depois vejo um deles a fazer um OTB numa zona relativamente fácil.Parámos, perguntámos se está tudo bem, e um deles começa assim a debitar uma série de indicações: "rabo para fora, pernas flectidas, olhos lá à frente", etc. Até que o rapaz tinha boa noção dos “fundamentals”, ao que eu ainda acrescentei “cotovelos levantados”. Tinha acabado de ganhar um bocadinho de respeito do grupo. Continuámos a descer, mas eu estava sem corrente, pelo que ia com alguma preocupação em não travar tanto para não perder o “momentum” e tive de começar a fazer ultrapassagens, uma delas por um salto. Confesso que uma parte da motivação para o ter feito foi mesmo o facto de não querer perder o embalo, mas a outra parte foi pura fanfarronice! E foi neste momento que o “senhor velhinho, com lycras e excesso de peso” passou a ser “um veterano do MTB, com equipamento técnico especializado e com o SAG do amortecedor ajustado ao seu peso”, o que, na paragem para reagrupamento seguinte, levou o rapaz que tinha dito para ir atrás dele a reconhecer o seu erro na minha avaliação e a dizer, entre risos e alguma surpresa, “afinal é melhor ir o senhor à frente”. Chegámos ao fim do trilho que desemboca no cruzamento da fonte (ao pé da estrada que vai para os trilhos da Malveira), despedi-me dos meus “pupilos” e segui pela estrada até à entrada Norte da pedra amarela. Daí , já conhecia o caminho. Depois de estonteantes 60kmh no estradão que serpenteia até à Mula, ainda consegui entrar em mais uma pista, que segue transversal a essa estrada. Ainda deu tempo para ir deixar a roda na 2cycling e confirmar os receios de que aquele cubo ou já era ou está quase a ir!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

True MTB roots



A semana passada foi um tanto ou quanto negra relativamente ao ciclismo. As declarações do Armstrong ( ou strong arm, atendendo  a que já se injectou mais vezes do que o mais famoso carochito de Queluz, o Ramalho) caíram que nem uma bomba no mundo ciclístico. A mim, só veio confirmar o que já se sabia  há muitos anos – o ciclismo está carregadinho de doping, e existe, até certo grau, algum encobrimento por parte da UCI. Talvez seja por isso que a UCI e seus súbditos da FPC dizem “o ciclismo de estrada é que é o ciclismo profissional”. Eu, pessoalmente, não sou um grande activista do anti doping, porque o desporto de alta competição está carregado dele e o que é doping ou não é sempre duvidável… proteínas ou cafeína são doping? O meu próprio sangue é doping? Será a alimentação doping? Ou até a raça? Sim, porque todos sabemos que nunca vai haver um etíope, magrinho e subnutrido a ganhar corridas de  100m nem um africano, cuja densidade óssea é maior que nos caucasianos, a ganhar 1000m bruços. Ou até haverá doping nas senhoras, que por disfunção hormonal têm mais bigode do que eu? Muito poderia ser dito sobre isto, mas o que me trás aqui, é precisamente a postura antagonista a esta realidade, o “true roots” do MTB.





Este sábado, vi um documentário que há muito queria ver: “Klunkerz: a film about mountain bikes” que se centra na origem da nossa amada actividade. Podia ter escrito “o nosso amado desporto”, mas isto não é bem um desporto. O Covas diria que é “um desporto com forte componente lúdica”, mas os hippies californianos que começaram a levar as bikes para as montanhas diriam que é “uma actividade lúdica com componente desportiva”. Estes hippies, não são uns hippies quaisquer, estamos a falar de todas as personagens que estão no MTB hall of fame: Charlie Kelly, Gary Fisher, Joe Breeze, Tom Ritchey, etc, que no inicio dos anos 70 começaram a meter pneus grossos e guiadores oversize nas bikes pasteleiras dos anos 50. Todos eles, ciclistas de estrada com mais ou menos sucesso desportivo, depois do treino da manhã, juntavam-se com os amigos para irem fazer umas descidas radicais em Marin County.





E a palavra de ordem para estes pioneiros era “fun”. Quando perceberam quer a coisa era mais “fun” se tivessem um desviador atrás, puseram um, Quando perceberam que os quadros em cromoly eram mais “fun”, pediram ao Joe Breeze e Tom Ritchey que começassem a soldar umas coisas e é quando começa a aparecer o formato em “diamante” que hoje reconhecemos como o standard do MTB. Quando perceberam que estas bikes eram “fun enough” para permitir pedalar até ao cimo do monte, fizeram-no. À medida que as bikes evoluíam e eram cada vez mais “fun”, independentemente do sentido vertical em que se ia, convertiam-se muitos riders a este novo conceito, e um dia, o Ritchey deu-lhes o nome pelo qual, nós, a descendência directa destes hippies Californianos,  as viríamos a conhecer – as Mountain Bikes.







O Ritchey? Mas a primeira mountain bike não foi a Specialized Stumpjumper, perguntariam vocês? Ao que eu responderia, “não, não foi”. E agora já sei o porquê do meu ódio à Specialized, que apesar de enraizado há muitos anos, não tinha, na verdade, uma sustentação válida e assente em factos: depois do Ritchey ter finalmente desenhado e soldado os primeiros quadros de MTB, o Mike Sinyard (o boss da Specialized) comprou um. Imediatamente, o Gary Fisher ficou preocupado com tal aquisição. Receio mais que fundado, pois poucos meses depois estava no mercado uma réplica da mountain bike do Tom Ritchey, mas “made in Taiwan” e chamada Specialized Stumpjumper. Depois de explicado o ódio intrínseco que habita o coração de todo o mountain biker (mesmo que seja o envergonhado dono de uma bike desta marca), faltava só revelar um pequeno detalhe que tudo expõe sobre o MTB e sobre as suas intenções como desporto: o primeiro “prize Money” que houve no mundo das bicicletas de montanha, que foi atribuído ao Joe Breeze, vencedor da primeira corrida de DH cronometrada, a “repack”. Nada mais, nada menos do que “a bag of smokables”. É verdade, o MTB até promove o uso de doping, mas não é de landrolonas, testosteronas, curtizona ou efedrina. É que no MTB, até o doping é recreativo!


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Zandinga



Sobrevivemos ao apocalipse Maia! Depois de uma previsão tão falhada, deviamos escusar-nos a outras previsões, pois nem temos essa tradição aqui no blog, mas cheira-me que vamos ter um ano animado no mundo das bikes. Aqui ficam algumas das coisas que li nas borras do café:
 
1 – O declínio dos canhões de DH (e das anorécticas do XC)
Vamos ser francos, e tentar perceber a quem é que serve um canhão de DH. É obvio que se estás em competição, terás de ter um, e mesmo assim será sempre discutível se aquela pista carece de um angulo de direcção de 62º e de 240mm na traseira, ou se iria ser mais rápido numa bike mais ágil. Mas para quem não anda na competição, para quem anda por gozo, um canhão não pedalável, sem autonomia, acaba por ficar encostado à espera de um dia com carrinha, do teleférico de um bike park ou de um dia ter paciência para andar a empurrar uma bike monte acima.
 
 
 
2 – Finalmente, o enduro
O engenheiros trabalharam duro neste conceito. Foram precisos muitos anos para se chegar a estas bikes. Foi precisos os amortecedores evoluirem, foi preciso o aluminio evoluir, foram precisos muitos projectos de CAD, suspensões novas, lock-out's, mudanças com 11 carretos e aquilo que começou por serem bikes de sobem mal e descem mais ou menos, que partem na testa e nas escoras,  à medida que foi refinado, acabou em peças de engenharia fantásticas, que traduzem aquilo que eu considero ser o verdadeiro espírito MTB – o all rounding! Sim, o all rounding sempre existiu, mas quando os trilhos se complicavam, começava-se a deixar peças pelo caminho, chegava-se todo partido e as bikes caiam que nem tordos, e os riders com elas. Neste momento, temos máquinas de 13Kg capazes de enfrentar praticamente qualquer descida, mas que não bombeiam ao pedalar e que sobem como uma hardtail subia há 10 anos.


 
 
3- Enduro for life
 Se isto vai ser o futuro do MTB e vamos voltar, tal como era no inicio dos ’90, a ter o MTB como sendo uma “multi-disciplina”, implica novas competições. E vamos vê-las aí a explodir, e quantidade de pessoal que vai aderir vai ser incrível, porque para fazer a prova sem ligar à classificação nem é preciso ter genes de maratonista Queniano como no XC, nem é preciso ter genes kamikazes a correr no sangue como no DH. É uma solução de compromisso onde muita gente se encontra, mas que competitivamente se encontrava num vazio. Tenho sempre algum receio de ver "provas" chegarem em grande a um determinado nicho. Há sempre "importações" que tendem a estragá-lo. Eu bem vi há muitos anos como o cliclismo de estrada, através da UCI influenciou o XC, e como o motocross e snowboard influenciaram o DH, Mas o enduro é tão "just for fun", tão ligado ao mountain bike e às colinas de Marin County, que não tem uma influência externa onde ir beber.


 
4 – Seatpost drop – o tubo de selim automático
Como é que ninguem se lembrou disto mais cedo? A invenção não é de agora, mas começa a ter preços praticáveis. Na minha modesta opinião é talvez a maior invenção que vi nascer desde a minha entrada no MTB. Com um simples botão, uma mudança radical de geometria da bike – literalmente do XC ao DH com um só clique – sem paragem para subir ou descer selim, sem perda de “flow”, apenas com um clique. É supremamente genial. Vamos começar a ver isto a vir de origem nas bikes de enduro, mas suspeito que cada vez mais o pessoal do DH de competição vai aderir a isto para ultrapassar zonas de pedal. É a invenção do século. Andámos durante anos a falar de "curso ajustável", suspensão com bloqueio, propedal, mas a verdadeira polivalência estava ao alcance de um botão.
 
 
 
 5 - 650B
Durante anos, 26 polegadas foi um dado adquirido. Nem os regulamentos da UCI permitiam outro tamanho de rodas portanto não era um assunto propriamente aberto a discussão. Mas o povo não é sereno, é inquieto e questionador, e começámos a ver uns "rebeldes" a lançarem no mercado umas bikes, que tinham roda 29 e pareciam mountain bikes. Mas não eram, porque as verdadeiras mountain bikes são de roda 26, dizia a UCI. À medida que mais rebeldes se juntavam à causa, outras causas se juntavam aos rebeldes, e já não era só roda 26 e 29, já se falava de 24, 700C, ISO406 e 650B. Mas os conservadores, nos quais eu me incluia, vitima de formatação MTBistica dos anos 90, dizia que 26 é que era, 29 era muito grande e só fazia sentido em quadros XL para pessoal com 2 metros, e o 24 era pequeno demais, só faria sentido em dirt jump. Acontece é que os engenheiros não são parvos, e recuperaram um tamanho, entre o 26 e o 29. Na verdade o 650B é um 27,5. É óbvio que se fica com uma maior capacidade de superar obstáculos, mas sem parecer uma mountain bike desenvolvida em Chernobyl como parecem as 29ers. E pelo facto de no ultimo Rampage umas 650B terem sacado um 3º lugar, muitas bocas que diziam que uma roda maior só é boa para pedalar, tiveram de se calar e a discussão está mais acesa que nunca.
 

 


 
Bom ano de 2013 e bons rides!!

 







segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Enduro contra a crise




Há muitos anos, talvez há tantos quanto os que ando de bike, que me deparo com uma enorme dificuldade em escolher a modalidade, dentro do MTB, que melhor “me assenta”. XC é para pessoal subnutrido com 2% de gordura, em Portugal não há dual nem 4x e o trial é muito parado para o meu gosto. Já o downhill “à antiga” servia perfeitamente, mas, quando “regressei” às bikes em 2007, o downhill tinha evoluído monstruosamente, e já se tinha dividido em sub modalidades com o freeride, slopestyle, big mountain, avalanches,etc… e nenhuma desta me assentava bem. Por um lado não há big mountains em Portugal e poucos ou nenhuns meios mecânicos de ascensão por cá existem, por outro, não há “big balls” para os saltos de fé do freeride e slopestyle. Para além disso, houve a debandada geral dos elementos da GAS e esta deserção muito contribuiu para que nunca se tenha resolvido o eterno problema do transporte. Perante isto, persistia a dúvida, fazer ou não fazer downhill?

Never ending singles

A resposta estava mais perto do que imaginava, aliás, já a tinha dado há muito tempo… em tempos idos o downhill fazia-se em qualquer caminho com inclinação. E para lá chegar, era de bike. O sacrifício da subida era recompensado com o gozo da descida. Simples né?
Não, “né” de todo. É que isto era com a bike do downhill do antigamente, porque agora, com 240mm atrás e 200mm à frente, não se chega lá acima, pelo menos a pedalar. Mas calma, não está tudo perdido. A mesma evolução tecnológica que permite ângulos de direcção de 61º também desbravou outros caminhos, nomeadamente o das “bicicletas de longo curso pedaláveis”. E assim, perante a necessidade comercial de se venderem estas novas bikes, se baptizou uma modalidade que sempre existiu, mas que nunca tinha tido nome: o Enduro. A evolução tecnológica é substancialmente maior do que a do conceito, sendo que este último se resume a “subir, para depois descer”. Já em termos das bikes, dizem muitos “especialistas” que as all-mountain  / enduro são o topo da evolução tecnológica das 2 rodas. Não gosto muito destas falácias comerciais, mas até concordo com os marketeers, motivo pelo qual já tive duas desta “raça”.


 Abençoada com uma geometria multifacetada


O que me levou a hoje escrever este post foi o passeio excelente que dei ontem na zona da Serra da Carregueira. É que tocou praticamente em todas as pequenas coisas que me fazem adorar este desporto… grandes vistas, o sossego do campo, a pica das descidas, os singles fechadinhos, os trilhos novos, a lama nos dentes, etc. Foi um passeio extenso, mais de 3 horas de bike, mas as enduristas têm uma posição de condução descomprometida com o cronómetro, são mais confortáveis que muitos sofás, e por isso, não custou nada. Para além disso, o facto de ser tão pedalável, permitiu-me, numa só manhã, visitar 3 spots de “pistas” (reparem que escrevo pistas, e não trilhos), um deles descoberto por mero acaso. A primeira incursão foi no antigo spot do CFT, que depois de muitos anos a sofrer erosão, voltou a ter actividade e já tem um wallride e mais uns saltos montados. Dali, rumei até à zona da pedreira da prisão e daí entrei no Belas CC. E foi aí que descobri um trilho novo, com inicio na famosa antena disfarçada de pinheiro, bem no coração do BCC. Não sei quanto tempo vai durar aquilo, atendendo à sua localização tão inusitada, e por isso fiz questão de o descer 2 vezes, com saltos e tudo. Dali, foi rumar até à mata de Belas e às pistas dos “Maus Caminhos”. Apesar de ter ido ao chão e de ter um belo lanho na canela direita, cheguei a casa satisfeito e com o problema do “downhill sem transporte” resolvido. E é muito mais barato, perfeitamente adequado aos tempos de contenção que vivemos!


Water resistant

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Perdido (ou não) na Malveira



Calma, o titulo é enganador. Eu nunca me perco e sei sempre para que ponto cardeal estou virado. Eu tenho magnetite nos dentes, característica de tempos, em que nós e os pombos teríamos um passado em comum. Não me perdi nem andei perdido, mas estive nos trilhos da Malveira e por momentos não sabia lá muito bem onde estava. Passo a explicar:

Há dois fds resolvi ir matar saudades da Malveira. Há já muitos meses que não descia naquelas encostas e se não estou em erro, a minha ultima presença naquelas bandas tinha sido com a Pitch, em autonomia. Decidi fazer o mesmo, deixei o carro cá em baixo, meti o “hardware” na mochila e fui trepando até lá acima. Chegado aquela clareira que vocês bem sabem, não tivesse já sido o palco de tanto disparate motivado pelos nervos de quem se vai meter numa embrulhada em duas rodas, foi vestir as protecções, meter o integral e começar a descer.

Logo nos primeiros metros do “ride the lightning” reparei que aquilo estava… sem trilho! Tudo completamento coberto de folhas e vegetação.A verdade é que os movimentos do corpo naquela secção já estão um tanto automatizados e já não é preciso ver o trilho. A 2ª secção, talvez a minha preferida com aquela sequencia de curvas com camber, estava limpinha, um bocado degradada, mas sem problemas. Já mais abaixo, foi quando o meu cérebro começou a dar sinais de que “está aqui alguma coisa mal”. A magnetite dos dentes dizia que eu estava no sitio certo mas os olhos diziam que estava perdido e que o sitio onde estava não era a malveira. As entradas já não são no mesmo sitio, alguns obstáculos que serviam de referencia já lá não estão, as acácias levaram um desbaste inconsciente e os restos ficaram no meio dos trilhos. Eu continuei a descer, certo de que não rumava ao sitio que queria, e de repente, no meio deste trilho novo, aparece aquele rockgarden antes de uma curva pra esquerda, que é tão característico que me deu imediatamente a certeza de onde estava. “Afinal a magnetite não engana, nem pombos, nem riders” pensei eu. A secção que já foi os voadores está completamente arrasada a bulldozer, mas fez-se ali uma manhãzinha de enduro muito à maneira.

Nesta semana, voltei a ir lá. Tal como os pombos, que à medida que repetem um trajecto, vão optimizando o percurso de modo a pouparem umas batidas de asas, eu também só preciso de passar uma vez num sitio para memorizar o caminho. E depois da penosa subida, quando eu me preparava para umas descidas em trilhos invisíveis, com pontos de referencia do estilo “ah, este era o sitio onde estava aquele salto”, dou comigo no “ride the lightning” todo limpinho. Tinha havido alguma espécie de manutenção ali. Apesar de só ter levado o integral (as protecções ficaram em casa pois eu não estava a fazer planos de me mandar pro chão), ao ver ali o velhinho trilho, pai de tantos receios e de conquistas, “à mercê” de ser desbravado, larguei-me um bocado e fui bem a abrir para quem estava na mesma máquina com que tinha subido até ali. A Pitch portou-se bem, mas levou muita porradinha e partiu um raio que já deixou a roda da frente empenada… o enduro não custa 10€ por descida, mas como em tudo na vida, “não há almoços grátis”.