quarta-feira, 30 de maio de 2018

Porto de Mós DH


Maio é aquele mês em que começa a cheirar a férias. Durante anos, este era o mês do Lisboa Downtown. Lisboa enchia-se de gente por ali abaixo, e especialmente nas primeiras edições, aquilo era o equivalente a termos o Rampage em Portugal. Infelizmente, e apesar de entender perfeitamente os motivos, estamos privados do LDT já desde 2011.  E isso deixou aqui um vazio, porque apesar de com o passar do tempo e com a evolução das bikes o evento ter ficado menos “extreme”, tinhamos em Portugal todos os anos os riders de topo do circuito mundial. Na tentativa de não perder contacto com a coisa, virei-me para o DH nacional, em que já sabemos que 80% das provas se disputam de Coimbra para cima. Durante os anos 90 havia a famosa prova em Palmela, e em anos mais recente foi o Turcifal que recebeu umas edições da “prova ao pé de Lisboa”. Mas desde aí, se quero ir ver uma prova do campeonato, só há uma hipótese... espero pacientemente por uma das etapas mais antigas do circuito nacional, na terra que em tempos foi a “Meca” portuguesa deste desporto – Porto de Mós. 

Não são todos os municípios que têm um logotipo destes...



Pista do Figueiredo


 Milicianos!


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Millenials' enduro


Sempre que compro uma bike, o caminho até lá chegar é sempre o mesmo: um longo namoro com meia dúzia de bikes, uma longa sucessão de avarias e de idas ao mecânico, uma série de dias em que as voltas não são satisfatórias por o equipamento estar nas últimas, uma série de voltas em que me corto a fazer isto ou aquilo para poupar o equipamento, até que chega o dia, em que já de cabeça um bocado perdida, decido que preciso realmente de uma bike nova. A Pitch portou-se heroicamente durante 7 anos, mas estava na hora de gozar uma reforma tranquila e ficar de reservada para dias com menos porrada. 

 good old mate



Quando finalmente decidi começar a ver a sério, fui ver as marcas habituais e o que havia agora no mercado, mas havia três coisas que tinha bem definidas: quadro em alumínio, 160mm de curso traseiro e 65º de angulo de direcção. Acabei com algumas “finalistas”, a inevitável YT Capra, a Canyon Torque, a Nukeproof 275, a Commencal Meta AM 4.2, a Radon Swoop 170 e a Vitus Sommet. No final, a coisa já estava reduzida à Commencal e à Vitus, e uma promoção na CRC acabou por ditar a escolha final, que foi a Vitus Sommet. Nestes 8 anos, grandes evoluções tecnológicas ocorreram no mundo das bikes, pelo que já sabia de antemão, que qualquer que fosse a escolha, ia ser uma bike desta nova geração de enduristas bem diferente das que tinha tido até agora, e a Sommet está carregada de novidades:

Direct 2 Consumer
Antes da bike em si, já o processo de compra foi uma novidade. Uma marca que só vende directamente ao consumidor. Esta foi a primeira bike que comprei para mim, online, de uma marca que só vende online. Aliás, todas as finalistas da “consulta de mercado” eram de marcas D2C. Ainda dei uma volta por algumas lojas, mas tudo o que fosse de 2017 ou 2018, tinha preços de 2020. A CRC é a minha loja de confiança, já sou cliente há mais de 10 anos, e estava certo de que a compra ia correr bem. O envio foi super rápido, demorou uma semana. A bike chegou “quase” impecável. Deve ter levado uma porrada algures e trazia uma pequena marca na tinta, que não tem mais de 2mm de diâmetro. E como já sabemos que os negócios online vivem da reputação, foi só mandar para lá uma foto, dizer que estava insatisfeito, e mais um desconto se pôs a caminho. Se algum de vocês tem dúvidas sobre comprar uma bike online... esqueçam-nas! Conseguem uma bike por 50% daquilo que vos ia custar na loja!

 

  
i want my money back!




Slack Geometry
Quando se fala de angulo de direcção de 65º e de distancia entre eixos de 1170mm estamos a falar das medidas do DH Racing por volta de 2010. Isto era a geometria das Santa Cruz V10 que viamos a passar em Sintra. E portanto, sabemos que estas medidas são bastante agressivas. Havia um pequeno receio de que a direcção fosse molengona ( 65 de angulo + rodas 650B + guiador wide) mas com os avanços curtos actuais, já calculava que uma coisa compensasse a outra. Outra coisa que me preocupava era a altura do eixo ao solo, que tem vindo a ser reduzida, mas o que verifiquei nos trilhos, foi que em algumas zonas em que a Pitch raspava a pedaleira, com a Sommet passo sem espinhas. Ainda falta levar a bicha para os trilhos da Malveira, e aí é que eu acho que esta geometria vai-se fazer notar ainda mais positivamente.




V-Link
Quando penso em sistemas de suspensão avançados, os primeiros que me vêm à cabeça são o DWLink e o VPP. Assim que apareceram os primeiros pivots virtuais, achei-os uma solução magnifica: o eixo de rotação do sistema não existe propriamente, muda de sitio conforme o curso activado, e pode ser colocado onde for mais conveniente. O sistema da Sommet é um “4 bar vlink”, ou seja, mistura o nosso conhecido “4 bar linkage” com um pivot virtual. É uma espécie de DWLink mas com o triangulo traseiro sem estar unificado. E estou completamente rendido. A bicicleta não bombeia a subir – baixa os 25% de SAG e dali já não mexe, e a descer, existe uma sensação de progressividade que nunca tinha sentido. Ainda não a esgotei, e estou convencido que isso só vai acontecer no primeiro dia de capacete integral e de protecções...
 
V-Link 



650B
Fique já bem claro: houvessem ainda bikes decentes com rodas 26, e este parágrafo não estava aqui. Nem é por desconfiar de algum modo das rodas 650B mas as 26 polegadas eram o último standard do MTB, e basta ver a quantidade de sites de bikes e de equipas amadoras que têm no seu nome “qualquer_coisa_26” para se perceber como esta medida era diferenciadora e importante no mundo do MTB. E o que me faz ser reticente em relação às 650B nem é resistência à mudança, é saber que a indústria anda desejosa de nos levar para as rodas 29. E em relação a essas, sim, tenho muitas dúvidas que sejam indicadas para o MTB. Mas como 650B é o novo standard e como não o consegui evitar, lá vieram duas rodas grandalhonas a equipar a Sommet. E tudo aquilo que eu pensava que sabia confirmou-se: de facto, de um modo geral, são melhores que as 26. São mais confortáveis em velocidade e têm mais grip nas curvas mais rápidas e sem apoio. No entanto, e um bocado de propósito, levei a bike a um trilho ali na Carregueira que é o “snake trail”, que tal como o nome sugere, é uma sucessão interminável de curvas contra curvas extremamente apertadas. E foi aí, e apenas aí, que senti que estava com rodas grandes e que havia uma certa necessidade de manobrar a bike com mais agressividade. Há muitos kms por fazer até ter uma opinião definitiva, mas até agora, estou a gostar.

 
fuckin' Millenials... 



Wide Bars
Assim que o pessoal da Santa Cruz Syndicate apareceu há uns anos atrás com guiadores de 800mm (810 para o Minaar) muitos perguntavam se não se estaria a levar a moda das wide bars um bocado longe demais. Mas pelos vistos não, porque uns anos depois, vemos que o standard das bikes de enduro está nos 780mm (800 para as bikes L e XL). Isto era completamente impensável nos tempos em que os guiadores elevados eram tão frágeis, que traziam uma peça de ligação, entre os dois lados do guiador, à semelhança dos de BMX.Mas o alumínio evoluiu e já no ano passado tinha equipado a Pitch com um guiador de 785, pelo que a transição já tinha ocorrido. E de facto, um guiador largo faz toda a diferença: antigamente, nos “fundamentals” de quem gostava de descer, uma das regras era “cotovelos levantados”. Agora, com guiadores da largura dos nossos ombros, ja não é preciso pensar nisso, porque os cotovelos ficam precisamente como devem estar.
 
cockpit P.O.V.



1X10
Com a primeira bike de montanha que tive, veio o primeiro desviador. E veio também uma certa sensação de que me tinham enganado. Aquilo dizia que tinha 18 velocidades, mas rapidamente percebi que dessas 18, haviam talvez umas 9 que eram únicas. Na verdade, todas as relações que se obtinham com o prato do meio, eram repetíveis no prato mais pequeno ou no maior. Para além disso, ao operar simultanemante com um prato de 22 e de 44 dentes e com cassetes de 12-50, há determinadas relações em que se fizermos as contas, estamos com 30 elos de corrente a mais (ou a menos). Claro que parte da missão do desviador é absorver este excesso e manter a corrente esticada, mas não há mola que consiga absorver isto tudo e com frequência, a primeira meia pedalada é para meter tensão na corrente. Quando os engenheiros conseguiram espremer 10 velocidades na mesma cassete, alguns riders meteram-lhe uma mega range de 50+ dentes, e abdicaram dos 3 pratos e desviador frontal, e muito rapidamente isto passou a ser a regra no enduro. Um prato é perfeito. A corrente está sempre em tensão com a ajuda da guia, e as mudanças entram como se tivessem embraiagem. No caso da Sommet, já tinha lido em algumas reviews que o prato de 32T era demasiado ambicioso. Não é que não se façam as subidas na mesma, mas o esforço envolvido é desnecessário.

 
Chega e sobra



Manitou
À medida que se acumulam anos a ridar, acumulam-se um infindável número de marcas fetiche. Umas porque são de facto as que têm os melhores produtos em determinada categoria, outras porque se associaram a este ou aquele rider, outras porque têm produtos inovadores e com abordagens diferentes das habituais, e algumas que nem sabemos bem porquê. As bikes da Intense, os travões da Magura, os amortecedores da Öhlins, os desviadores da Sachs, as pedaleiras da Race Face, os ténis da 5-10, os pneus da Maxxis, as rodas da Tioga, ou as suspensões da Fox, são exemplos de algumas marcas marcantes por uma razão ou outra.
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A Intense M1 do Palmer com travões Magura (1995)


Já tinha tido suspensões de todas as marcas decentes que conheço. Geralmente a escolha acabava em Marzocchi ou Rock Shox, que são marcas mais em conta, mas também já tinha tido Fox. No entanto havia uma marca que habitava aqui o subconsciente desde os anos 90. A Manitou era conhecida pelas suspensões high-end, mas ficou ainda mais conhecida quando lançou no mercado uma coroa dupla de baínhas invertidas – a Manitou Dorado. Gostava tanto desta suspensão, que a Hot Chili de DH que tive, esteve quase quase a ser equipada com uma. E o facto de a Sommet trazer uma Manitou Mattoc, acabou por também ser um factor a seu favor. E posso ir já dizendo que é a melhor suspensão que já tive, apenas comparável à Fox40, que tem mais 40mm de curso. 



Ride It

Quando comprei a Pitch em 2011, queria uma bike que desse para pedalar. Tinha um canhão de DH para os dias de maluqueira, com a carrinha de alguém ou com o teleférico de um bike park. Mas a verdade, é que esses dias foram sendo cada vez menos, até que decidi vendê-la. E a pitch, apesar de muito competente a descer, tinha as suas limitações, pelo que já há uns anos que não tinha um verdadeiro “shred sled”.

No dia em que recebi e montei a Sommet, fui logo dar uma voltinha só para ver como é que aquilo era e fui imediatamente descer umas escadas aqui ao pé. E voltei a ter aquela sensação de “magic carpet” tipica das bikes de DH, de que não interessa ou quão irregular é o terreno, que de alguma forma a bike vai absorver aquilo tudo. Nos dias seguintes, levei-a para os cada vez mais degradados trilhos de Belas. A descer, a bike gosta de velocidade e é nos trilhos mais irregulares que brilha mais. É dificil explicar o quão entusiasmante esta bike é a descer, mas talvez isto vos ajude a compreender: já ando a ver se compro um colete de DH novo, porque o bichinho das descidas, que andava adormecido há uns tempos, voltou a despertar com esta máquina!


Falta o derradeiro teste: a Malveira! Não tardará muito em levar até lá a bike para fazer umas descidas em autonomia...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Mafra BTT - Trilho dos Mortos



O trilho dos mortos tem um nome sugestivo. E para além de sugestivo, já ouvi um sem número de histórias sobre a origem daquele nome. Uns diziam que o trilho é tão duro que se chega lá abaixo “morto”, outros diziam que o trilho era muito duro a subir, e que se chegava lá acima... “morto”. Ouvi também uma história, que atestava que a origem do nome estava num acidente, em que um automóvel, do qual ainda sobram algumas peças já no final do trilho, tinha caído pela ravina abaixo matando os seus ocupantes. Mas a história que mais me convenceu, e que foi contada por um local, é ainda mais tétrica... Este trilho termina numa terrinha chamada Carvalhal, que fica no fundo de um vale, em que confluem diversos ribeiros. Por ser muito predisposta a inundações não pôde nunca ter um cemitério, e este caminho, era o que os populares tomavam sempre que tinham de sepultar alguém, em direcção ao cemitério mais próximo, em Santa Suzana, onde o trilho começa. E esta história é suportada pelo facto de este trilho, agora para bicicletas, ter resultado na recuperação de um caminho centenário, muito anterior a alguém sair de lá “morto” pela longa descida, ou de existirem carros que caíssem pela ravina abaixo...


 
where the fun begins


luxury green


No entanto, as histórias que procuravam relacionar a dureza deste trilho com o seu nome, não são despropositadas. O trilho é de facto o mais duro de todos os que estão no menu dos trilhos de Mafra. Tem 3km de extensão, 70m de subida e 200m de descida, e o “KOM” está nos 8 minutos, o que atesta bem que o caminho está longe de ser fácil ou fluído. Creio que o meu melhor tempo ali terá sido na casa dos 10 minutos, mas apesar de estar classificado como “azul”, este trilho é “tricky”, cheio de armadilhas, e com muitas “no fall zones”, em que um erro no local errado te vai custar uma queda vertical de alguns andares. Tem início perto do gimnodesportivo de Santa Suzana, e depois de uns metros em que está limpo e até se consegue ir depressa, entra numa zona em que existe muita água, e mesmo no pico do verão, tem lama.

 
Mina de água

 
Tight corners



Depois de ultrapassada essa zona, entra-se na parte de floresta, em que ocorrem boa parte das subidas e em que os guiadores mais “wide” têm mais dificuldade em passar, pois a vegetação ali, mesmo com as manutenções constantes do MafraBTT, invade o trilho e torna a progressão mais difícil. Depois entra-se na parte mais antiga do trilho, que definitivamente não foi desenhada para bicicletas. Apesar de mais limpa de vegetação e de pedir mais alguma velocidade, tem umas passagens que exigem concentração máxima, especialmente numa zona em que se vai em cima de um muro muito antigo de retenção de terra, e que à esquerda de quem desce, parece mais uma plataforma de base jump do que propriamente um trilho para bikes.

 
Zona exposta



 
A Natureza a recuperar o que é dela




            Don't look left, don't cut, don't fall...

Já no final do trilho, depois de ultrapassado um dos ribeiros que vai ali desaguar ao Carvalhal, passamos pelo tal carro destruído pela queda e já mesmo a chegar à terrinha, temos ali umas subidas pelo meio de umas explorações agrícolas...e sim... quando chegamos mesmo ao Carvalhal, estamos efectivamente mortos. Mas não se deixem enganar por tantas dificuldades anunciadas, este é um trilho que vale a pena fazer, e a melhor maneira de descer de Sta. Suzana para o vale do Lizandro. E o trilho da Amazónia fica ali mesmo ao lado para assegurar o regresso, em offroad, até Montesouros...