sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Seven is the new six - 2nd act

Eu estou convencido de que tenho alguns dons proféticos. Pelo menos gosto de pensar que sim. E não pensem que tenho visões ou que vejo a virgem maria numa tosta mista. O que acontece, é que com a idade, por experiência e analogia com o passado, já sabemos de antemão onde alguns caminhos desconhecidos vão desembocar no futuro. Nas bikes não é diferente. Há uns anos atrás, já aqui no blog se previa que o 650B ia ser o tamanho de roda de referência no MTB. E adivinhámos também que as bikes de super enduro iam virar isto tudo outra vez.  Apesar disto, não adivinhámos tudo…


 Zandinga!


Para quem não acompanha tão de perto o mundo do mountain biking, vou fazer o resumo. Desde o inicio desta época de 2017 que temos visto algumas novidades na taça do mundo de DH, e a comunidade anda louca com elas. A roda 26 simplemente desapareceu, e deu lugar ao novo standard, o 650B ou 27,5 para quem prefira assim. No entanto, não satisfeito com as rodas maiores, o Greg Minnaar logo numa das etapas iniciais aparece com uma bike de DH com roda 29. A ele se seguiram mais uma série de riders que decidiram passar para este diâmetro de roda, e o que começou como uma “loucura” individual do Minnaar, passou a standard em poucos meses. Mas muitos dirão que esta era uma inevitabilidade, que rodas maiores sempre foram melhores para descer (os mesmos que há uns anos diziam que uma roda maior só era boa para pedalar), mas que o diâmetro das jantes comprometia a sua resistência. À medida que o material melhorou e se tornou fiável, era expectável que esta transição ocorresse.

"Go Greg" - "Yeah booooooy!"

Agora, o que ninguém estava à espera (excepto nós aqui na GAS) era que alguém fizesse o percurso inverso. Já em 2013, quando começaram a aparecer as bikes de super enduro, escrevi aqui um post sobre isso (seven is the new six), em que dizia que estas novas bikes iam  “criar a dúvida ao pessoal do downhill, que perante um traçado sinuoso e de dificuldade técnica um pouco mais baixa, vai começar a olhar para a bike de super-enduro que por acaso também está na carrinha, e se vai por a pensar se não será que aquela bike, mais leve, com mais resposta e mais ágil, não será uma melhor opção para aquela pista”  . O que não esperava é que o gajo que viesse  a ter estas dúvidas fosse o Sam Hill. Para quem não está por dentro, o Sam Hill tem andado um bocado fora da “cena” DH e tem disputado a taça mundial de enduro (EWS). Mas na semana passada, regressou ao DH apenas para  prova do Campeonato do Mundo e a grande surpresa foi a bike que elegeu para descer – uma Nukeproof 275 – uma bike de enduro. E se a escolha, por si só já diz muito sobre as capacidades destas bikes, o resultado obtido tira todas e quaisquer dúvidas – um 6º lugar. Isto vindo de um rider que não está no DH há quase 2 anos, chega ali, e deixa para trás 50 marmanjos com “big rigs” numa pista de mundial, com a exigência que bem sabemos. É certo que a pista de Cairns tinha uma série de características que a tornavam ideal para esta experiência, mas o facto de esta ter corrido tão bem, deixou a comunidade mtbistica de queixo caído, e até a industria ficou um bocado a pensar sobre isto. Porque se o Sam, com esta bike saca um 6º lugar “sem ir aos treinos”, até que ponto continua a fazer sentido explorar comercialmente bicicletas especificas para descer, que não sobem sem ser de teleférico ou carrinha, e que ficam atrás de bikes de super enduro numa pista de downhill?

A arma do crime


Uma coisa é certa: depois de o Sam Hill ter aberto esta porta, vamos ver em 2018, campeonatos de downhill locais, nacionais e mesmo mundiais, a ser invadidos por bikes de enduro. E se os amadores, que são os gajos que compram as bikes não vão optar por bikes de DH porque não são pedaláveis e são mais lentas nas pistas de DH, vamos “emagrecer” as bikes de DH ou aumentar o nível de dificuldade das pistas? E será que isso, não vai afastar ainda mais os amadores das pistas de DH e mandá-los para o enduro,”que é mais soft e eu já não tenho idade para estas merdas”? Ou vamos vê-las exclusivamente uma vez por ano, no Rampage, onde os 62º de angulo de direcção e os 250mm na traseira fazem realmente falta? Muita tinta e projectos de CAD vão correr nos próximos tempos sobre isto…

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Lizandro Trails - Trilho das amoreiras

O trilho das amoreiras é curto. É curto e nem é particularmente desafiante. Mas a vista que proporciona é tão boa que merece um “post” só para si. Este é uma adição recente ao menu de trilhos disponíveis ali naquelas bandas. Talvez tenha tardado em lá passar porque não fica muito “em mão”: o trilho é uma alternativa “on dirt” à estrada, na descida das curvas da carvoeira, e geralmente quando lá passo, é a subir. Mas este ano, com as obras nas arribas da Carvoeira que obrigam a ter a estrada fechada durante a semana, trocaram-me as voltas e explorei mais vezes ali a zona da baleia e S. Julião. A entrada para o trilho é junto ao emblemático “Pão com chouriço e sem”, no desvio para a Baleia, e depois é rumar em direcção às ruínas do forte da Carvoeira.

 Forte da Carvoeira (ou o sítio onde supostamente estão as ruínas)


Logo aí, começa um estradão que “apenas” oferece velocidade e uma vista incrível. Por vezes existe logo ali a dúvida de ir na gáspia ou meter as mãos no travão e parar um bocado para comer uma barrinha e ficar ali a apreciar a paisagem. Numa destas incursões que por ali fiz recentemente, tive mesmo de parar: um prego com uns 10cms entrou por um lado do pneu e saiu por outro. Não costumo ficar apeado por causa de furos e ando sempre com pelo menos uma camara de ar no camel, não fosse eu sou o gajo que levou uma caixa com 10 camaras de ar para a trip dos Alpes. Mas desta vez ia ficando mesmo apeado. O estrago no pneu foi tal, que a camara de ar nova, quando a comecei a encher, começou a sair pelos buracos do pneu. Mas o espirito de engenheiro valeu-me, forrei o interior do pneu com a camara de ar antiga e com uma pressão de para aí uns 15psi lá consegui chegar até casa. Pneu para o lixo, jante empenada e um raio partido. Os típicos “10euros por descida”…


 
A vista é deslumbrante. Vale a pena parar e comer qq coisa.

Até porque se desce melhor com o estômago forradinho...


O inicio do single, com o Lizandro à esquerda



 Single tracking 1



  Single tracking 2

Depois deste estradão, entra-se no single track. Não é nada de especial, mas dá para comprimir as suspensões. A parte mais desafiante é na chegada à estrada, já junto à ponte sobre o Lizandro. Sinceramente, o mais desafiante aqui nem é o trilho… é tentar não ser atropelado. É que o trilho termina numa pequena trialeira mais vertical,  que desemboca para cima do alcatrão, de forma completamente cega,  e não existe propriamente forma de a fazer sem que no fim, fiquemos já do outro lado da estrada. A única coisa que se pode fazer é mesmo desmontar ou esperar que não passe nenhum carro naquele momento.






 A trialeira final: sempre que possivel, evitar ser atropelado



Trailstats @ trailforks.com



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Mafra BTT - Trilho da Amazónia

Infelizmente, os trilhos não são todos a descer. Mas mesmo os single tracks sem pendente podem ser interessantes, e o da “Amazónia”, como foi tão correctamente baptizado pelos traibuilders , é a prova disso mesmo. Este faz parte do lote de trilhos do Mafra BTT e fica ali na zona da fronteira entre os concelhos de Sintra e de Mafra. O single começa no Carvalhal, uma terra central nesta rede de trilhos, e ladeia o Rio Lizandro até chegar quase a Montesouros, que é também local onde vários vales (e respectivos trilhos) convergem.


Trilho da Amazónia



Dry season


Por ser tão junto ao rio, é palco de uma vegetação super densa, de várias nascentes de água pelo caminho e é circundado por uma vegetação abundante e luxuriante. Daí o seu nome, pois temos ali algumas zonas que parece realmente que fomos parar a uma floresta tropical! Por esse mesmo motivo, este é um trilho que é mais para o Verão do que propriamente para o Inverno. 

sketchy shores


No Inverno, para além da lama abundante e dos shores escorregadios, não é preciso chover muito para que o Lizandro galgue as suas margens e nos deixe com água pelos joelhos. E por ser tão fechado e húmido, torna-se bastante fresco nos dias mais quentes, e algumas nascentes de água que encontramos pelo caminho são potáveis e quando este trilho foi aberto há uns anos, os colegas do Mafra BTT até lá tinham penduradas numa árvore umas canequinhas de barro para todos poderem utilizar. Claro que, à medida que foram lá passando pessoas,  as canequinhas já desapareceram…

Rain season - Trilho da Amazónia no Inverno



deep in da woods!



Mesmo durante a época seca, é um trilho de progressão lenta, com alguns skills de offroad envolvidos, ou seja… não se deixem enganar pela altimetria "suave", não é nenhuma “auto-estrada” para ciclo cross. É um verdadeiro trilho de MTB!


Where the trail ends...





Trilho da Amazónia stats @ trailforks.com

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Lizandro Trails - Trilho do Álvaro



Como prometido, vamos começar esta série sobre os trilhos ali junto à Ericeira. Curiosamente, muitos dos elementos da GAS, têm ou já tiveram uma relação de proximidade com esta vila, que para além das ondas da World Surf Reserve, do melhor pastel de nata de Lisboa e da abundância de bom peixe e marisco, tem ali uns trilhos bem bons.


O vale do Lizandro a começar a aparecer!



great days, great views, great rides





O trilho do Álvaro é vocacionado para descida e é bastante técnico, e confesso que há ali 2 secções que ainda não as consegui fazer em cima da bike. Como isto é habitualmente integrado numa volta para ir pedalar, não há integral nem protecções, mas é uma boa maneira de se chegar ao vale do Lizandro sem ser pelo alcatrão. 


No fall zone!




Começa na Lapa da Serra e vai serpenteando até ao pé do último viaduto da A21, junto à Sra do Ó. É bastante curto e inclinado, e está catalogado como “vermelho”. E não estamos a falar de “vermelho” de bike park para entretenimento familiar, é mesmo vermelho, tem pouco espaço para erros e algumas “no fall zones”.

take'em to da bridge!





A entrada e a 1ª secção é super rápida, mas lá mais para o meio, duas “chicanes” trialeiras e verticais (as tais que o travão de cabeça ainda não deixou fazer) tiram-lhe o “flow”. Sei que os Lizandro Trails já andam a tratar de “abrir” um bocado estas curvas. Até lá… desmonta-se!

Lizandro Trails - "Trilho do Álvaro"

terça-feira, 4 de julho de 2017

regresso às “origens”

A minha primeira experiência de mountain biking “a sério”, com bicicletas “a sério” e riders mais ou menos sérios, foi há muitos (muitos) anos atrás precisamente na zona da Ericeira. Lembro-me de praticamente tudo desse ride, e diria que gostei tanto mas tanto que 25 anos depois continuo agarrado às MTBs. E ali as encostas da Ericeira, Ribamar e vale do Lizandro foram sempre, ao longo destes anos,  das minhas preferidas para andar de bike. E das mais visitadas.


S. Lourenço - Ribamar



Mas a coisa ali na zona, de há uns anos para cá começou a ganhar ainda mais forma. A juntar ao já extenso mapa mental que tenho do local, com quase todos os sítios bons para andar de bicicleta já identificados ao longo dos anos, uma “local trail association” – MAFRA BTT – tem feito ali um trabalho de trailbuilding absolutamente brutal, recuperando alguns caminhos antigos e abrindo outros. A juntar a isto, um grupo de riders (Lizandro Trails) com vocações mais orientadas à gravidade tem também dado ali o seu contributo. Tudo junto, criou-se uma rede de trilhos enorme e interessante, acompanhada pelas vistas fantásticas ali do sitio.


 Sunset @ lizandro trails


Assim, e em tom comemorativo dos 10 anos da GAS , vou aqui tentar ir fazendo um apanhado dos trilhos de que ali tenho desfrutado nos últimos tempos.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

time flies!

Já passaram aqui uns meses (até anos) valentes desde que foi publicado um post aqui na G.A.S.
E ainda se passou mais tempo desde que que a GAS se juntou para ir andar de bike, mas a efeméride justificava ser assinalada, e aqui estou eu, para vos dizer que:


A GAS fez 10 anos!!


quinta-feira, 2 de julho de 2015

PDS - day 6 - Au revoir

Para o ultimo dia, estava-nos reservado o pior.
 
Depois de tudo arrumado e de termos a casa limpa, ligámos à mme. Letitia para ir lá ter connosco e nos devolver o dinheirinho que tinha de caução. Não se esqueçam que somos da europa do sul e o dinheirinho nos faz muita falta… Mas assim que chegou, e apesar de não ter reparado logo na braçadeira da SS, começou um dos momentos mais surreais da nossa estadia… entra a senhora pela casa adentro a gritar “sortir sortir” e a mandar vir connosco em francês porque a casa não estava limpa. Sempre aos berros, a coisa subiu um bocado de tom quando decidiu fechar uma porta em cima do Jay, mas deu-se mal, pois o Jay travou a porta com o pé e no retorno, foi a nazi que levou com ela. Antes que o confronto passasse para outro nível, metemos o Jay e o Carlos a tirar as coisas de casa, e fiquei eu e o Telmo a tratar de receber a caução de volta. Ela contava em Francês, e pela enésima vez naqueles dias, perguntava-me a mim mesmo como é que alguém decide dizer “oitenta” como sendo “quatro vintes”. É realmente estupido. Conhecia o binário, o decimal, e o hexa-decimal… o “vigésimal” ainda não, e parece-me que continuo sem perceber porque é que noventa e cinco são “quatro vintes e quinze”. À medida que a nazi debitava palavras em francês, só me lembrava do clássico dos S.O.D., “Speak English or Die”. Já com o material todo no exterior e com o dinheiro na mão, despedimo-nos convenientemente da Eva Braun, que quando tentou arrancar com o carro do estacionamento o deixou ir abaixo. A risada alta e em tom de gozo que este quatro marmanjos imediatamente proferiram valeram um dedo esticado para fora do carro quando já se encontrava a uma distância segura.

Mas ainda estava o stress a meio. O nosso transfer teimava em não aparecer e quando ligámos a saber o que se passava, percebemos que o nosso condutor tinha tirado uma folga. Estavamos a ficar apertados de tempo, e após uma enervante e longuíssima espera, aparece finalmente o nosso transfer, com mais de duas horas de atraso. Iamos ter de fazer uma corrida até ao aeroporto. A viagem foi feita sempre a olhar para o relógio, e chegámos ao aeroporto 5 minutos antes de se fechar o check-in. E quando finalmente o fizemos, descobrimos que o nosso voo estava super atrasado!

Deu para visitar o aeroporto e fazer umas compras nas free-shops. Depois de embarcados, este era o voo onde íamos ter tratamento VIP, pois o Telmo era amigo de um amigo que tinha um amigo naquela tripulação! Uma simpática hospedeira veio dizer-nos que dois de nós podiam aterrar no cockpit. Um seria o Telmo o outro, por sorteio, foi o Jay J. Apesar do dia stressante, esta foi uma excelente forma de terminarmos a nossa trip ao passportes!

Não quero terminar sem deixar aqui um abraço a estes três malucos que comigo fizeram esta trip. Inesquecível bros!

E como na vida, tem de haver sempre um objectivo inatingível, começa-se a ouvir uns sussurros que parece que dizem “Whistler”, “Kamloops”, “Mammoth Mountain”, “Kamikaze”, “Repack” , “Utah” e “Marin County”. Quem sabe se em 2020….

PDS Day 5 - Happy BirthJay

O domingo ia ser o nosso ultimo dia por aquelas bandas. Apesar de chover ainda mais que no dia anterior, havia muita vontade de ir andar de bike. O Jay e o Telmo tinham uma GT Fury para ir desbravar o BP de Chatel e umas bikes daquelas não podiam ficar ali paradas! O Carlos já estava mais na onde de começar a desmontar a Berg,e a mim, com o cansaço acumulado e com o dia a pedir mais mantinha do que calções de lycra, apetecia-me mais uma volta de descompressão a apreciar a paisagem envolvente do que um ride de integral, a ver só os 20 metros de trilho à minha frente e a lutar pela vida com a lama nos trilhos.

O Jay fazia 35 anos, e muito correctamente, quis comemorá-los nas inclinadas pistas de Chatel! Não havendo velas para apagar, há trilhos por desbravar!

Enquanto Jay e o Telmo se equipavam para uma “donilzada”, eu vestia os calçonitos e punha o penico na cabeça. Fui trepando devagarinho até ao bike park de chatel e a chuva intensa dos últimos dois dias tinha deixado a zona um pouco diferente de quando tínhamos chegado, e a meio da viagem, fui presenteado com a vista magnifica de uma cascata com uns 100 metros de altura. Depois de chegado ao BP, acabei por também encontrar o Jay e o Telmo que já tinham lama até aos dentes, mas que, apesar de ensopados, apresentavam um sorriso que não deixava enganar! Subi ainda mais um pouco e comecei o retorno até ao chalet, que ia ser feito por um caminho diferente.

Foi nessa alternativa que encontrei um parque para “low speed skills”, que apesar de parecer divertido, estava um bocado impraticável por as madeiras se encontrarem super escorregadias. Ainda deu para brincar um bocado antes de regressar ao chalet para se começar a operação de desmontagem da Pitch. Entretanto, chegaram o Jay e o Telmo e cerca de 10 kilos de lama. É que os “miúdos” não contentes do banho de lama que tinham levado, decidiram ir lavar-se a um rio. Os vídeos contam o resto da historia!

Depois dos banhos tomados, fomos até Chatel mais uma vez, para nos despedirmos do Alex e da terrinha e regressamos ao chalet para começar a arrumar as tralhas, que o próximo dia, era o do regresso!

Here we go again

Calma pessoal. É verdade que estivemos adormecidos, mas ainda não nos fomos embora de vez. A verdade é que depois de um relato tão épico como o da nossa bike trip do ano passado, parece-me que, qualquer que seja a noticia que pense em publicar, é demasiado pequena para quem já fez rides tão "em grande". Desde os Alpes que todos os palcos me parecem pequenos, todas as descidas curtas, e todas as encostas pouco inclinadas

Apesar de , em quase um ano desde o ultimo post, haver tanto para contar, o que me trouxe aqui outra vez, foi novamente a nossa trip do ano passado. Ainda havia dois dias por "contar" e tinha ficado prometido um "extended edit" do Pass'portes. Aproveitei estas 3 semanas de férias para o fazer (tem para aí  uns 90m!), e agora só falta fazer a ante-estreia lá em casa, acompanhada por umas cervejas (idealmente umas Hoegaarden) e uns bons petiscos :)

domingo, 26 de outubro de 2014

PDS day 4 - the aftermath

O 4º dia, apesar de ninguém o querer admitir, estava à partida condenado. Ninguém leva uma sova daquelas e acorda no dia seguinte às 7 da manhã a pensar em ir andar de bicicleta. Mas há sempre uns teimosos… Acordámos já bem tarde, por volta das 11 da manhã e chovia copiosamente. Os primeiros pensamentos do dia, depois do “boa puto, conseguiste”, foram solidários com os fellow riders que estavam a fazer o passportes naquele dia. Se aquilo com tempo seco tinha sido difícil, nem queria imaginar os desgraçadinhos que estavam a fazer aquilo à chuva. O dia e as dores musculares convidavam a ficar na cama, mas não só tinha sido o desgraçado que dormia no sofá, como nem me passava pela cabeça estar ali sem ir andar de bike.


 the switchback kings

O Telmo e o Jay tinham alugado duas montadas de DH, mas o dia de chuva e as dores no corpo deixaram o Jay “com um mau feeling” para o dia, e a Lapierre 720DH estava ali sozinha… essa foi a primeira borla do dia e deixei a Pitch no estaleiro, pedi o canhão ao Jay, e com o Telmo, fizemo-nos à estrada rumo ao bike park de Chatel. Depois de termos andado uma boa meia hora debaixo de chuva, decidimos começar a pedir boleia e depois de umas tentativas falhadas, acabámos por ter mais uma borla… uma rapariga simpática, a Emilie, decidiu ter pena de nós e levou-nos a nós e às bikes na sua pickup até ao bike park. 

 rainy days...

Entretanto, e como já era hora de almoço e a fome começou a apertar, decidimos que, atendendo à nossa condição de “portugueses sob assistência”, devíamos de tentar ir comer de borla até à terrinha que nos tinha recebido tão bem no dia anterior: Les Lindarets. Subimos os dois teleféricos de Chatel e descemos até ao vale onde havia umas tartiflettes. Foi um fartote de lama e de “close calls”, pois o piso estava difícil, mas os pulsos doíam tanto que quase que era mais seguro não travar. Chegamos sorrateiramente a Les Lindarets, e de um modo sereno, típico de quem já come à conta dos Europeus (do norte) há uns anos valentes, fomos para ao pé do paddock, comemos umas tartiflettes e bebemos umas Rivellas como se nada fosse connosco.

undercover smooth arrival @ Les Lindarets

Com a barriga mais composta andámos a fazer umas descidas em modo super slow motion entre Lindarets e Chatel, a rebolar na lama e a fazer drifts, mas de facto, o corpo estava super moído e, a meio da tarde decidimos ir andando até Chatel. A lama era tanta, que na fila para lavagem das bikes,  havia uns putos a tirar lama da bike e a fazer bolas para atirar! Do bike park até ao nosso chalet era sempre a descer, mas ainda nos esperava a subida até à vila. Como tema do dia era a palavra “gratuito” estávamos a ficar um pouco desiludidos em termos de ir a pé até à vila, e quando passou um autocarro, levantámos as mãos a pedir colinho e para nosso espanto, o motorista parou uns metros à frente. Mais uma borla!



 A merecida recompensa!

 
Depois de entregues as bikes num estado mais aceitável que o nosso, fomos espalhar lama para uma esplanada onde nos parecia que estavam umas Hoegaarden à nossa espera. Dois “pints” depois, e já alegremente alcoolizados, fomos até ao chalet, onde o Jay e o Carlos nos aguardavam para o jantar.


 Let the good times roll...

quarta-feira, 16 de julho de 2014

PDS Day 3 – The D day


Já me levantei muitas vezes bastante cedo para ir andar de bike, mas esta, foi a primeira vez que me apanhei em cima de uma bicicleta às 6:30 da manhã. A alvorada no chalet tocou às 6h, e depois de equipados para irmos lutar pela vida e com o pequeno almoço tomado, pusemo-nos a caminho do posto de turismo de Chatel, onde iriamos levantar os nossos dorsais e toda uma panóplia de informações sobre a zona. Não deixa de ser um bocado estúpido, que antes de ires enfrentar 100kms de bike, te encham de papeis, camisolas e brindes alusivos à prova que estás prestes a começar, mas tudo bem, eles são franceses, coitados. Às 7 e picos estávamos despachados e com os frontais colados à bike e fomos andando para o nosso “starting resort”, as cabines de Super Châtel. Deu-se início à monitorização por GPS, abriram-se as comportas e lá fomos nós a abrir "até lá acima”. Uma vez  lá chegados, deram-se os últimos apertos aos equipamentos, desejámos boa sorte uns aos outros e deu-se início à primeira descida.
 

 bring the noise




rise and shine!

Ora a primeira secção não foi nada simpática. Começámos logo por nos perder. Lá encontrámos o caminho da luz,  mas depois de uma boa descida, chegámos a uma secção de alcatrão… a subir! Em meia dúzia de minutos já havia um dos participantes de corrente partida, furos,  e a coisa não se estava a afigurar lá muito ao nosso jeito. Depois de vencida a subida e de atravessada a fronteira para solo helvético, chegámos ao lago de Morgins, onde nadavam alegremente uns patinhos, iluminados pela precoce luz solar típica desta fase do ano. O cenário bucólico deu uma motivação extra e depois de uns kilómetros em plano começámos a descer até ao lift seguinte onde começou o tormento do Jay: o homem tem um medo de morte de telecadeiras, algo que eu compreendo muito bem atendendo à minha pouca predisposição para estar pendurado por cabos, mas que nunca pensei que o viesse a afectar tanto. Terminada esta subida, encontrámos o Jay sentado no chão a fazer contas à vida e a pensar que ainda ia ter mais 15 telecadeiras durante o dia. Iniciámos a descida até Champoussin, onde fomos muito bem recebidos, com fruta, queijos, chocolates e enchidos de vários tipos. Este foi um cenário que se repetiu um sem numero de vezes durante o dia.

os patinhos do lago de Morgins
(não são estes quatro, os patinhos estão mais atrás)



calma velho, já só faltam mais 15...


Les Dents du Midi


refuel & reload


Mais uma telecadeira e começou uma das descidas mais memoráveis do dia, uma daquelas que vou recordar para sempre.  São estes trilhos que me fazem gostar de andar de bike. A descida para Champery era mesmo uma das mais longas, e o início começou em estradão de “pedra batida” em que andámos a curtir com uns drifts. Mas Jay e o Telmo ganharam distância, acabei por também me separar do Carlos e vi-me a fazer sem companhia uma das secções mais brutais do PDS: um single track de inclinação altamente duvidosa, com 1000m de declive, a estalar os timpanos por diversas vezes durante a descida tal era o consumo absurdo de altitude que ia alimentando a bike. Isto tudo, num trilho fantástico, de longe o mais técnico do dia, e com vista ainda mais fantástica para uma das terras mais emblemáticas do MTB na europa: Champéry. Durante a descida lembrei-me inúmeras vezes do Danny Hart e da sua run louca de 2011 por aquelas bandas. E lembrei-me dos outros todos, os que me inspiraram para este desporto há tantos anos, e que por ali já tinham descido... John Tomac, Missy Giove, Shaun Palmer, e do Nico Vouilloz que para além de ali ter ganho inumeras vezes, estava a fazer aquela edição do PDS e a partilhar os trilhos connosco . Os pneus da minha bike estavam a pisar História e havia que estar à altura. Fui ultrapassado por alguns e ultrapassei outros tantos, e acabei por chegar ao final daquele single que para sempre recordarei, inteiro. Os fellow riders aguardavam-me para uma descida em alcatrão bem divertida, sempre a abrir até Champery. O barulho com que chegámos aquela pacata vila acordou metade do vale, e a outra metade que já estava acordada estava à nossa espera com uma especialidade suiça, as raclettes. Emborquei meia dúzia de copos de Rivella para repor as energias e depois de todos juntos novamente, metemo-nos no lift mais impressionante do dia: uma cabine de pelo menos 50m2 que sobe monte acima carregada de pessoas e bikes. Curiosamente, desta, o Jay não teve medo. Eu cá, borrei-me todo.


 agora imaginem um single por aqui abaixo


 some history repeating

Nova descida até Les Crosets, onde passámos por zonas absolutamente fantásticas, com vistas a condizer. A descida fazia-se pelo lado norte de uma encosta, o que nos proporcionava contacto constante com neve que ainda subsistia em pequenos aglomerados. Apesar de não ter uma inclinação tão acentuada, a pista era larga e deu espaço para uma avalanche de ultrapassagens e de tentativas de ultrapassagem, drifts de sei lá quantos metros, em que se tentava encaixar a bike no espacinho à frente do gajo que ia à nossa frente. Estava montada a palhaçada, que só acabou quando acabou a descida, já novamente em terreno francês, em Les Lindarets.

 on the top

 companheiros de luta, na paragem estratégica para um gel de cafeina


atingido pelas "rolling stones"

never ending singles

Les Lindarets foi uma daquelas surpresas que só quem lá esteve consegue explicar. Uma terrinha, encaixada no meio de um vale, praticamente sem acessos e composta por três casinhas. Quando digo três, são literalmente três. Mas a festa que por ali estava montada era digna de uma capital de distrito. Um trio de músicos na onda do jazz new orleans animava as hostes enquanto um farto abastecimento com outra especialidade local, a tartiflette, nos fornecia energia. A onda destes quatro tugas que ali tinham aterrado sobressaía, e até os músicos engraçaram connosco. E mesmo quando damos connosco a comer ao lado dos caixotes do lixo, o humor não esmorece e alguém afirma que “o pessoal da europa do sul fica ao pé dos caixotes do lixo”. À medida que enfardávamos tartiflettes, havia um certo sentimento de estarmos a recuperar o que os “europeus do norte” nos tinham tirado nos últimos 3 anos. E metade do dia estava decorrido .



a tartiflette

Ali, fica a Europa do Sul (e o caixote do lixo)


e ninguém faz a festa como os europeus do Sul

Depois de mais uma telecadeira, mais uma descida absolutamente inesquecível, até Morzine. Apesar de semi-perdidos ao inicio, demos connosco numa descida super rápida, com secções de “pista” de bike park onde finalmente conseguimos fazer curvas com apoio e sem derrapar. Sucederam-se as ultrapassagens, o que inevitavelmente pica o ultrapassado. Na tentativa de recuperar a distância para os da frente, o Jay deu o melhor espeta que nos calhou em todo o PDS e que lhe deixou uma bela medalha na perna. O Jay não nos parecia particularmente chateado com o sucedido, pelo contrário, exibia até um certo orgulho em “ter caído em Morzine”. A verdade é essa, não se espetou em Belas ou em Sintra, espetou-se em Morzine, e isso muda tudo. A dor é a mesma, mas a história para contar é muito melhor! O final desse troço era cerca de 2km de alcatrão até ao centro da vila, que nos custou imenso.

medal of honor
(isto foi umas horas depois, ao 3º dia estava mais bonita)


Em Morzine, e apesar de nos mimarem com um fondue de chocolate, o ambiente não estava nada apelativo. Um concerto na zona do abastecimento, a debitar 120dB, tornava o local impraticável, e depois de uns golinhos numa cerveja acabámos a fugir dali muito rapidamente em direcção a Les Gets, que agora sabemos que se diz “LêgÊ”. Mais uma secção de pistas até Les Gets, que terminava numa zona de tables mesmo à entrada da vila. Les Gets foi a vila que recebeu o paddock principal, e aquilo também estava em festa.


GAS @ Morzine


 a chegada a Les Gets (not bad, not bad)


Esperava-nos uma das secções mais difíceis do dia, o troço de regresso a Morzine desde Les Gets. Inúmeras subidas “leg propelled” foram quase exasperantes e sempre que pensávamos que tinha sido a última, eramos brindados com a seguinte uns metros mais à frente. Perdemos imenso tempo nesta secção e o tempo para concluirmos a prova estava a começar a estreitar. Estava na hora de começarmos a perder menos tempo de volta das iguarias e de começar a dar fogo à peça. Regressados a Morzine, apressámo-nos a apanhar o teleférico duplo que nos levaria novamente até Les Lindarets e onde apanhámos, num caso único durante o dia, uma enorme fila para os meios mecânicos. A descida até Les Lindarets foi novamente por “pedra batida” e já só faltavam mais 2 lifts.


  
não eram 7000m a descer?


 parece que não...



ic19, rush hour

O TS de Chaux Fleurie levou-nos até ao pico do bike park de Chatel. E a descida era mesmo pelo meio do bike park. Com receio de apanharmos mais alguma subida difícil começámos a fazer as “dh options” umas atrás das outras, e foi assim que, já com cerca de 80kms comidos, demos connosco  a fazer pistas vermelhas. O Telmo queixava-se de que ainda não tinha feito uma preta e queria meter-se, depois de 9 horas de downhill, na Black Shore, que é a pista dos argentinos do vídeo do “epic fail at Chatel”. Ninguem o deixou cometer essa loucura, mas em compensação ripámos pelas vermelhas abaixo.



rider @ PDS


rider @ PDS


Chegámos finalmente ao ultimo teleférico, o de Pré de La Joux e a proximidade do fim da jornada trouxe algum conforto e permitiu fazer os últimos kilometros a um ritmo menos puxado. E a o trilho a isso obrigava, pois havia secções em que, do lado esquerdo, só se via  uma ravina de sei lá quantos metros. Depois de novamente reunidos, a descida até Chatel só terminou na Switch5, onde efusivamente nos agarrámos uns aos outros a felicitarmo-nos mutuamente, com uma fraternidade que só o outro latino do vale, o Alex, conseguia compreender. 100 kms depois, o PDS estava feito!